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Francisco Brennand: Patrimônio Imensurável

Cerca de três quilômetros separam as últimas casas do bairro da Várzea, no oeste do Recife, da Oficina Brennand. O barulho dos carros e ônibus, o asfalto das ruas, o cenário agitado de pessoas andando de um lado a outro ficam completamente para trás quando se começa a andar pela estrada que corta os 21 hectares da Propriedade Santos Cosme e Damião. A reserva de Mata Atlântica, entrecortada pelo Rio Capibaribe, contribui para ressaltar a atmosfera mística do local. Ao se chegar à entrada principal do Salão de Esculturas, observa-se, em destaque, o símbolo da oficina, o arco e a flecha de Oxóssi, o orixá da caça e das matas no Candomblé. Já neste primeiro impacto é possível perceber as diversas faces do gênio criativo do artista Francisco Brennand que estão presentes em cada uma das milhares de obras que compõem o acervo do lugar.

A Oficina Brennand foi fundada em 1971 sobre as ruínas de uma antiga olaria construída no início do século XX e desativada na década de 1950. A Cerâmica São João fez parte da infância do artista e isto foi decisivo na escolha de preservar a arquitetura da extinta fábrica de telhas e tijolos e mesclá-la com construções mais recentes que juntas refletem o imaginário de seu criador, caracterizado pelo ecletismo de sua obra. Exemplos desse apego ao passado do local podem ser vistos no próprio Salão das Esculturas, onde dois fornos da antiga fábrica de cerâmica continuam em pé sendo aproveitados como espaços para a exposição de obras de arte. Ambientes pequenos e lúgubres, os antigos fornos servem para explorar referências religiosas e míticas criando um conjunto em que a iluminação, o espaço e as esculturas se unem harmoniosamente para transmitir uma atmosfera sacra ao visitante. Além da arquitetura propriamente dita, outros elementos referentes à antiga fábrica foram aproveitados por Francisco, como é o caso de duas máquinas transformadas em peças de arte e expostas no local. Atualmente, a oficina continua atuando no mercado de cerâmicas tanto na venda de peças decorativas, inspiradas nas esculturas do seu criador, quanto de pisos cerâmicos. As cerâmicas Brennand ainda são muito valorizadas no mercado e consideradas com um alto padrão de qualidade.

O Salão das Esculturas abriga cerca de três mil peças de autoria de Francisco Brennand. Para conseguir um número tão grande de esculturas, o artista idealiza a obra e entrega um projeto de escultura para uma equipe de oleiros que atua na oficina e fica responsável pela fabricação da peça. Os temas abordados nas esculturas são bastante diversificados. Entretanto, é possível enxergar a predominância da mitologia, em especial a greco-romana, em suas obras. Deuses, heróis e lendas são retratados de maneira simbólica em suas esculturas. Outra temática recorrente e polêmica é a da sexualidade. Representações de genitálias masculinas e femininas são comuns em suas peças.

Curiosamente, apesar de ser mais conhecido pelas obras em cerâmica, Francisco Brennand considerava a escultura uma arte menor. De acordo com João Durval, instrutor de história da Oficina, o artista mudou de opinião ao ter contato com esculturas feitas pelo pintor espanhol Pablo Picasso, notabilizado pela idealização do movimento artístico conhecido como Cubismo, no início do século XX. “Entre os anos 1945 e 1946, Brennand faz sua primeira escultura oficial: a cabeça de Débora Brennand, sua primeira esposa, que o desafiou a produzi-la. Infelizmente a estátua se quebrou por acidente. O desafio veio da curiosidade de superação para quem já pintava na época, mas desprezava escultura por considerar uma arte apenas decorativa. Isso mudou em 1949 quando ele foi para uma exposição de Pablo Picasso em Paris e encontrou não apenas pinturas, mas esculturas do espanhol. Ele voltou ao Brasil com a mente mudada”, relatou.

Além do salão de esculturas, outros espaços se destacam na Oficina Brennand pela sua originalidade e beleza. Um deles é o Templo Central. Localizado na parte externa do complexo arquitetônico, o Templo Central abriga o Ovo Primordial, considerado símbolo da imortalidade. O pátio ao redor do templo é cercado de esculturas. Apesar de estátuas da deusa Vênus estarem espalhadas pelo local, a maior parte das peças desta área fogem um pouco da temática greco-romana o que sublinha a diversidade da obra de Francisco Brennand. Se destacam no local, as estátuas dos pássaros roca, aves gigantescas presentes nas histórias árabes de Simbad, o Marujo. Na lenda árabe estes pássaros atacaram a tripulação de Simbad. Na Oficina, eles estão postos como forma de proteção simbólica ao Ovo Primordial. Ainda ao redor do Templo Central, é possível observar esculturas de personagens bíblicas como Adão, Eva e Caim.

Próximo ao Templo Central se encontra a Praça Burle Marx, projetada, em 1992, pelo próprio arquiteto e paisagista Roberto Burle Marx que foi amigo pessoal de Francisco Brennand. A praça foi inaugurada no ano 2000, seis anos após a morte de Burle Marx. Ela possui um lago artificial que abriga cisnes negros trazidos da Austrália, responsáveis por um episódio no mínimo curioso envolvendo o artista. Conta-se que uma vez ele estava dando comida para os cisnes quando um deles se espantou e grasnou. Assustado, Brennand deu um passo para trás e caiu na água. Ao sair estava com comida de ganso na barba.

Apesar de ser muito conhecido por conta de suas esculturas, Francisco Brennand começou sua carreira como pintor e adicionou elementos de várias correntes artísticas à suas pinturas. O espaço Accademia conta com um acervo de mais de trezentos quadros do artista. “Aqui temos o Brennand que a maioria do público não conhece. Digo isso porque a maior parte das pessoas o conhece pelas esculturas e painéis cerâmicos, mas, além disso, ele pinta e desenha. Ele começa a desenvolver seu gosto por desenhos desde os treze anos quando fazia caricatura de professores e colegas de turma. Nesse contexto, ele conheceu o jovem escritor Ariano Suassuna que o convidaria para ilustrar seus primeiros poemas e desenhar o figurino de suas primeiras peças de teatro. Oficialmente Francisco Brennand começou a pintar aos 16 anos”, informou João Durval.

Na Accademia está exposta a obra mais antiga de Brennand em exibição chamada de “O Sono” de 1947. No mesmo espaço se encontra uma de suas obras mais recentes, a “The Blue Girl” finalizada em 2014. Dentre as características mais marcantes da pintura de Brennand está o intenso uso da técnica de superposição, que permite ao artista colocar uma figura por baixo de outra criando uma forma de “mensagem subliminar” no quadro. Um dos exemplos desta técnica pode ser visto na obra “Cisne Negro” onde é possível detectar um corpo de um cisne fundido às pernas de uma bailarina. As influências de Pablo Picasso e o uso da superposição também são observados na obra “O Fantasma do Cubismo”, na qual Brennand desenha a imagem de uma mulher sobre uma figura masculina de formas quadradas, características desta escola artística.

Outro movimento artístico que influenciou bastante as pinturas de Francisco Brennand foi o Expressionismo, cujas origens remontam ao início do século XX. Os expressionistas usavam técnicas de deformação da realidade como formar de expressar os sentimentos, ideias e emoções do artista. A obra mais representativa deste movimento é “O Grito” de Edvard Munch. Exemplos de técnicas expressionistas utilizadas por Brennand podem ser vistas em obras como a série de pinturas de ginastas criada pelo artista. Muitas vezes é possível ver o ambiente da própria Oficina Brennand retratada nas obras do artista. O motivo desta ambientação se deve ao fato dele desenvolver parte de suas obras usando fotografias de modelos que posaram dentro da oficina. Em alguns quadros é possível visualizar até mesmo os pássaros roca dispostos ao redor do Templo Central.

O caráter diversificado da obra do artista surge também nos momentos em que o mesmo se retrata em suas pinturas. No autorretrato intitulado “O Beato”, Francisco Brennand se posiciona como um homem religioso. No quadro denominado “Netuno” o artista utiliza a técnica de sobreposição para se retratar como o deus dos mares de Roma Antiga. A barba de Brennand é composta a partir da sobreposição do desenho de um peixe a um rosto humano. Em outros momentos, o artista opta por se inserir dentro da pintura. Esta escolha ocorre, por exemplo, no quadro  “Suzana no Banho” releitura da obra clássica do italiano Tintoretto e que remete a um episódio contido em um trecho apócrifo do livro bíblico de Daniel. Na história, Suzana é observada no banho por dois idosos que após o ocorrido tentam chantageá-la para manter relações sexuais. No quadro original de Tintoretto, são retratados os dois idosos e uma mulher de pele branca. Brennand desenha uma Suzana de pele morena e três idosos, um dos quais seria o próprio artista.

Todos estes aspectos tornam a arte de Francisco Brennand singular e reconhecida internacionalmente. A oficina é sem dúvida uma atração turística sem paralelo em Pernambuco e merece ser visitada não apenas por turistas estrangeiros ou de outros estados, mas principalmente pelos seus conterrâneos que merecem conhecer um dos locais mais belos do estado. Já não se pode dizer que a obra de Francisco Brennand pertença ao próprio artista. Elas são patrimônio de todos os pernambucanos.

Além de cartão-postal

A inspiração surgiu do aniversário de 500 anos do descobrimento do Brasil. Como homenagem, o artista plástico pernambucano Francisco Brennand deu vida ao Parque das Esculturas. Em dezembro de 2000 era inaugurado o projeto que não só seria o marco comemorativo do Recife à data, como também, ao longo dos anos, se tornaria o cartão-postal da cidade.

Ao todo, o Parque das Esculturas conta com 90 obras espalhadas por uma área localizada em frente ao Marco Zero, no centro do Recife. A principal escultura é uma coluna de 32 metros de altura, confeccionada em argila e bronze, chamada Coluna de Cristal. Ela foi alvo de uma grande polêmica na época da inauguração do projeto. Associaram a coluna à pornografia e acusaram o artista de ter criado um símbolo que lembrava o órgão sexual masculino. A Prefeitura do Recife quase censurou a obra. Brennand, então, alterou a forma da peça, retirando a cúpula, que teria incialmente, e colocando uma reprodução da flor que inspirou o nome da coluna. Adicionou, ainda, oito gárgulas (quatro em cima e quatro embaixo) cada uma apontando para as direções norte, sul, leste e oeste. Porém a discussão sobre o objeto perpetua até hoje, pois as pessoas ainda lembram-se da polêmica.

Polêmica a parte, a torre foi inspirada em uma flor descoberta por Burle Marx e é adornada com serpentes marinhas, que simbolizam as lendas comuns da época das navegações. “A coluna representa os homens vindos das cidades para alcançar as grandes florestas do mundo, os conquistadores encontraram a Árvore da Vida guardando em seu âmago o ovo  resplendente da eternidade”, explicou Brennand no discurso de inauguração. O artista também esclarece que o ovo representa o emblema da eternidade.

Botos, peixes-espada, gaivotas e sereias são outras esculturas que completam o parque. Todo o mistério que envolvia a navegação para terras distantes e desconhecidas é retratado em cada escultura que está presente no local. “As sereias estão representadas como mulheres-pássaro, com suas bocas abertas a clamar pela sedução dos marujos”, diz Brennand. As cinco sereias olham o tempo, Cora, Severina, Justina, Marina e Alberta, cada uma representa um século, somando os 500 anos de descoberta do Brasil. Próximo a elas, há uma coluna branca, esta, sem sereia, simbolizando o pouso de voos desconhecidos e do que estar por vir.

Outras figuras míticas e singulares estão no Parque das Esculturas. Elas simulam a própria realidade encarada pelos navegantes. Tartarugas, ovos gigantescos, pássaros multicoloridos. Todas as diferenças trazidas pelo Novo Mundo. “Somos herdeiros de um continente onde não pedimos para nascer. Mas onde nascemos e que, portanto, devemos preservá-lo com toda sua grandeza a única que pode prefigurar o futuro da nossa história”.

Preservação do patrimônio – A manutenção das obras é feita pela Prefeitura do Recife. Após vistorias realizadas regularmente por técnicos do órgão responsável, a Emlurb, os monumentos são avaliados e são analisados quais os serviços necessários para recuperá-los. “A restauração de cada monumento varia de caso a caso. Quando há rachaduras, fissuras e pichações, os serviços são programados e realizados na maior brevidade possível”, afirma o assessor de imprensa da Emlurb, Mauro Rossiter. Em relação à segurança, em fevereiro a Prefeitura instalou uma câmera de monitoramento 24h para reforçar a segurança do Parque das Esculturas. “A câmera, instalada ao lado do Centro de Artesanato de Pernambuco, possui infravermelho, zoom de até 400 metros, giro de 360º horizontal e 270º vertical”, explica Mauro. Ela tem ajudado a coibir atos de violência no local e identificar suspeitos de vandalismo.