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Indústria dos concursos: candidato x nação

O comércio que movimenta mais de 50 bilhões ao ano em todo o país vai além do interesse individual do candidato e cria um mercado com defensores e repreensão.

A obrigação dos governos em realizar concursos públicos para prover cargos na administração, gerou, desde a Constituição de 1988, uma explosão do mercado preparatório para concursos. Analisá-los como positivo ou negativo, ultrapassa, em muito, o interesse individual dos candidatos e alcança um cenário global do perfil de profissionais que o país gera. 

Segundo o professor William Douglas, conhecido como o “guru dos concursos” por falar para quase 1 milhão de pessoas que se preparam para concorrer nas seleções à cargos públicos, “A população, de um modo geral, já percebeu o concurso como um patrimônio do país e uma oportunidade aberta a todos que optam por, sem depender de compadrios e parentescos, ter acesso aos cargos públicos”.

Há anos, mais de 30 milhões de brasileiros se inscrevem anualmente em concursos públicos movimentando a economia do País em torno de 50 bilhões de reais com gastos em inscrições, cursos, livros e apostilas. Ao que se observa o interesse dos candidatos à prova mostram-se os mesmos: conquistar estabilidade no emprego, salários mais atrativos do que na iniciativa privada e a não exigência de experiência anterior, assim como a menor exigência no próprio desempenho do trabalho.

Em contrapartida o perfil desses profissionais mudou. Com os atuais baixos índices de desemprego, o concurseiro já não é mais um desempregado, com sérios problemas financeiros e absolutamente desesperado por alguma forma de renda. Segundo uma pesquisa realizada pelo Estado no final de 2013, 81,7% têm nível superior, enquanto 15,8% o nível médio. Em relação à idade, 85,7% possuem entre 18 e 35 anos, sendo que 50,5% abrangem a faixa etária de 26 a 35 e apenas 2,9% afirmaram ter mais de 45 anos.

A pesquisa releva um mercado propício a professores, cursos preparatórios e bancas de provas tendo um forte público consumidor. O grande problema é como esse mercado está sendo explorado e as críticas geradas à conhecida “indústria dos concursos”.

Em artigo publicado por William, intitulado “A indústria dos concursos”, o professor destaca que os benefícios que propiciam são inegáveis. “Criticar qualquer ’indústria’, mesmo que honesta, tem a ver com a cultura de nosso país, avessa à produção, ao empreendedorismo e à admiração por quem trabalha. Pesquisas mostram que o brasileiro acredita que o sucesso decorre mais da sorte, do casamento ou da corrupção, e menos como resultado do estudo ou do trabalho. A riqueza tem sido vista como indício de desonestidade”, explica.

Apesar de reconhecer que o concurso público é uma das únicas maneiras de qualquer pessoa poder concorrer a uma vaga da Administração Pública, sem depender de indicações, nepotismo ou outros privilégios que superem a competência e o conhecimento, muitos estudiosos condenam a forma como ele é feito e o montante exagerado arrecadado.

“O que me causa inquietação são as taxas de inscrições relativamente altas em relação aos custos operacionais dos certames. Exemplo: onde se cobra valores que variam de R$ 50,00 a 60,00 dependendo do cargo a ser disputado,  tem-se um total de 10.230 candidatos inscritos  para participar do evento, totalizando  em valores R$569.070.00”, diz o jornalista maranhense Severino Neto, respondendo às colocações de William.

“Se o setor público não visa obter lucro com tal atividade, porque se cobra valores bem acima dos de custeio? Se trabalharmos com a hipótese do órgão público ter contratado a banca por R$ 100.000,00 para realizar o certame, para onde vão os valores restantes?”, conclui.

No caso, dois lados do mercado disputam sobre até onde o concurso público é benéfico para sociedade. Apesar de ser uma forma de permitir o acesso e ingressão de qualquer pessoal, através do merecimento intelectual a cargos públicos de alta responsabilidade, muitos discutem a indústria criada ao redor do concurso público. Para eles, esse mercado cria uma camada de pegadinhas, não avaliação de conhecimento.