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Liderança feminina em favor da literatura

Projetos de incentivo à literatura, música e cultura visam trazer a sociedade para dentro da Academia Pernambucana de Letras.

Localizado na Av. Rui Barbosa, bairro da Jaqueira no Recife, o antigo casarão de cor branca, janelas azuis e com grandes jardins chega muitas vezes a passar despercebido aos olhos dos transeuntes. Para os desavisados, mais uma obra arquitetônica de nossa colonização; na verdade, a sede da nossa importante Academia Pernambucana de Letras (APL). Fundada em 26 de janeiro de 1901, por Carneiro Vilela e outros escritores pernambucanos da época, com um total de 20 cadeiras, foi uma das primeiras academias de letras do Brasil. Presidida pela primeira vez por um homem, e vinte oito vezes seguidas também, agora é comandada por uma mulher.

Fátima Quintas assumiu a presidência em 26 de janeiro de 2012. A acadêmica, nascida no Recife, é escritora, antropóloga, contista e cronista brasileira, ocupando atualmente a cadeira de número 31, do patrono Manuel de Oliveira Lima. Hoje, como presidente da instituição, aplica-se em sua divulgação incentivando as atividades propostas pela casa em atrair novos participantes às atividades da Academia. “Desde que assumi, meu objetivo é dar mais fôlego à vida acadêmica através de seminários, palestras, encontros e cursos de língua portuguesa. Os projetos que tenho implantado se dirigem a uma abertura da Academia Pernambucana de Letras para a sociedade”, declara.

“É uma responsabilidade muito grande ser a primeira mulher a presidir a APL. Isso toca certo orgulho; não vou negar que a gente tem medo, mas ao mesmo tempo eu acho que a mulher permite ter um olhar diferente, feminino, é um olhar que eu tenho tentado exprimir”, conta.

“Por exemplo, abrir a academia, essa tem sido a minha proposta. Eu sinto e sei que tenho um compromisso com a sociedade. Quero que ela chegue aqui dentro. A Academia Pernambucana de Letras não é só dos Acadêmicos, é dos pernambucanos”, explica Fátima.

A agenda da academia oferece uma série de apresentações musicais, prêmios literários, oficinas de leitura e encontros em favor da cultura. “Nós temos duas reuniões mensais com os acadêmicos, mas eu sentia necessidade de programas, de projetos além dessas reuniões. Como exemplo, um projeto de língua portuguesa; eu acho que a academia tem essa obrigação de oferecer cursos de português e grupos de estudo”, explica. “Agora nós temos um grupo de estudos sobre Clarice Lispector e também um projeto chamado de ‘Em tom de conversa’, onde dialogamos sempre com um acadêmico ou escritor, bem à vontade, de forma bem coloquial. Temos música em finais de semana, projeto com Eliana Caldas, com música erudita, aos domingos à tarde”, conta.

Familiarizada com leitura, música e arte desde muito pequena, Fátima vê com satisfação, o interesse tanto dos jovens como do público mais maduro na programação da APL, por isso acredita no potencial dos projetos. “Dependendo do projeto e música, o público enche o auditório. É incrível como há uma grande carência, uma grande necessidade em ouvir música clássica. Aqui sempre trazemos música erudita, mas sem ortodoxia, falo de Villa-Lobos a Ernesto Nazareth, etc. Abre-se uma programação e o auditório fica lotado.

Atrair e manter o público dentro da APL ainda tem sido difícil em alguns casos, explica Fátima. “No curso de português que é dirigido aos professores das escolas públicas não há problemas com a frequência. O mesmo com o grupo de estudos sobre Clarice Lispector, mas no projeto ‘Em tom de conversa’, a assiduidade do público já é problemática. No programa sobre poetas pernambucanos temos sempre sala lotada. Neste, só estudamos os poetas pernambucanos já falecidos, para evitar problemas com os vivos.“

Com o intuito de contemplar todas as faixas etárias, propiciando cada vez mais o acesso da população à APL, muito embora os jovens também venham prestigiando os concertos vespertinos de domingo, está sendo criado o Sarau da Juventude, contemplando estudantes do nível médio das escolas públicas e universitários em geral.

Finalizando, Fátima enfatizou seu empenho em aproximar a APL da sociedade pernambucana e, também oportunizando aos jovens, hoje tão absorvidos pelo mundo virtual, nem sempre cultural, maior contato com  a cultura, salientando a grande chaga de nosso país: a carência educacional. Em suas palavras textuais: “O Brasil precisa de educação. Se você me perguntar o que o Brasil mais precisa hoje, eu lhe diria: Educação, educação, educação. Tudo o mais virá depois. Saúde, segurança, etc., tudo é consequência da educação.”