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O passado dá espaço para tecnologia e novas culturas

Na história do Brasil, Pernambuco foi uma das poucas capitanias hereditárias que prosperaram. Qual o segredo? A produção da cana-de-açúcar. Porém, o Estado não lidera mais a produção canavieira nacional.

Com as estiagens afetando periodicamente a região Nordeste, que em 2013 teve o maior índice registrado nos últimos 50 anos, o relevo ondulado que dificulta a mecanização, a lavoura canavieira do Estado perdeu preferência para as plantações de cana-de-açúcar no Sudeste e Centro-Oeste, que se localizam em terrenos planos e com uma melhor distribuição das chuvas. Das 55 usinas aqui existentes no início do século XX, apenas 17 continuam as suas atividades.

Com este cenário, o cultivo de cana-de-açúcar não deve ser apontado como a única saída para o setor agrícola pernambucano, onde cada sub-região possui características próprias que podem ser utilizadas para uma produção agrícola diferenciada. É o que explica o gerente de planejamento do Instituto Agronômico de Pernambuco, Hildeberto Rodrigues. “Agricultura pressupõe água. Logo a maior desvantagem do Sertão é a baixa precipitação pluviométrica. Mas ele possui uma vantagem sobre as outras regiões que é a qualidade do solo e a topografia plana”, explica.

Segundo uma pesquisa feita pela Embrapa, a produção de cacau se mostra viável em uma região onde antes não se imaginava ser possível: o sertão de Pernambuco. No Vale do São Francisco, um dos maiores produtores de frutas do mundo, alguns agricultores estão investindo em uma cultura típica de áreas mais úmidas. Isso acontece por conta da irrigação, que ofereceu fôlego aos produtores para ousarem, permitindo uma regularidade e aumento significativo na produção e diminuindo a vulnerabilidade às estiagens.

A iniciativa é a prova de que pesquisa, investimentos e irrigação podem mudar a realidade de um lugar que antes não era usado para agricultura devido ao clima seco. Hoje, o semiárido pernambucano é um grande produtor de cacau. Segundo estudos, a produção cacaueira pode apresentar safras recordes, por meio de consórcio com outras culturas, tais como bananeira e coqueiro.

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Os interessados no plantio contam com mais um argumento. A temida praga vassoura-de-bruxa, uma das doenças de maior impacto econômico nos países produtores de cacau da América do Sul e das ilhas do Caribe, que já dizimou grandes plantações em todo país, não assusta em Pernambuco. A alta insolação e a baixa umidade no semiárido impede a disseminação de algumas pragas e doenças, além de favorecer a colheita de até duas safras por ano.

Segundo Hildeberto, o ideal seria que a Zona da Mata abrigasse uma variedade maior de culturas. Ele explica que o IPA, empresa pública vinculada à secretaria de Agricultura de Pernambuco, tem entre suas atribuições orientar os agricultores sobre como desenvolver seu plantio. “A rigor, estes montes na Zona da Mata não deviam ser de cana-de-açúcar e sim de culturas perenes de árvores de grande porte como o cacau. Entre os grandes agricultores, diversificar o plantio é uma discussão eterna, mas já tem levado alguns usineiros a mudarem, pelo menos na geografia. Na região do Vale do São Francisco já existem grandes áreas plantadas com cana-de-açúcar irrigada. O IPA sempre está disposto a orientar, sobretudo os pequenos produtores, a diversificarem ao máximo sua atividade agrícola”, comenta.

Para Hildeberto Rodrigues, a agricultura do Vale do São Francisco tem um grande potencial de crescimento, mas deveria ser articulada uma política de exportação. “Os grandes produtores, sobretudo na área da fruticultura, deveriam copiar as práticas chilenas. Esse país não produz nada que não tenha vendido antes. O Chile tem adidos comerciais em todos os lugares do mundo e só planta alguma coisa quando um determinado agente comercial internacional negocia previamente. Daí então, o governo incentiva a plantação já com a carta de comercialização garantida”, comenta. Segundo ele, aqui se faz o contrário. “A política agrícola não leva em conta um estudo de mercado. Existe muito modismo na produção de frutas. Por isso, de vez em quando se vê reportagens de produtores jogando frutas no rio por não terem pra quem vender. Produzir o que foi previamente vendido é a orientação para quem quer planejar a agricultura”, considerou.

De olho nos vizinhos

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O Brasil produz anualmente cerca de 200 mil toneladas de cacau, insuficientes para abastecer o mercado nacional que chega a importar mais de 80 mil toneladas. A notícia de que o consumo de cacau no Brasil está crescendo e a produção diminuindo foi um dos motivos que levaram as empresas a investirem nessa cultura.

O perímetro irrigado de Tabuleiro de Russas, no semiárido cearense, que se destaca com suas principais culturas de melão, banana e outros, começará a produzir cacau. A iniciativa é da Agrícola Famosa, umas das maiores exportadoras de frutas frescas do país, em parceria com empresa francesa do ramo de chocolates.

Sediada parte em Icapuí (CE) e em Tibau (RN), na divisa dos dois Estados, a Famosa possui nove unidades de produção espalhadas pela região e em Pernambuco. A Agrícola Famosa investiu R$ 800 mil no projeto do cacau e aplicou a técnica de irrigação por gotejamento e com ferti-irrigação, como já acontece na produção de frutas da empresa. O primeiro plantio de cacau deverá ser feito em junho e julho deste ano em área de 55 hectares no perímetro de Russas. Mas, o objetivo é chegar a 1,5 mil hectares. A empresa francesa entrará com a parte da genética e a Famosa com o conhecimento que já possui do solo da região.

Outra interessada que chega ao Brasil de olho no mercado cacaueiro é a Netafim, empresa pioneira e líder mundial em soluções de irrigação por gotejamento. Desde 2004 ela atua com os produtores de cacau na região sul da Bahia, alcançando resultados expressivos com aumento de até 590% na produtividade da cultura. Hoje a região é conhecida pelas grandes produções de cacau.

A Netafim foi fundada há mais de 45 anos e com cerca de 30 subsidiárias em todo o mundo, oferece as melhores soluções aos agricultores de mais de 110 países por meio 15 unidades produtivas, milhares de distribuidores e mais de 4.000 funcionários. No Brasil são 3 unidades: Campinas, Ribeirão Preto e outra em Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco. A empresa é responsável pela invenção da tecnologia de irrigação por gotejamento, em 1965, com o objetivo de aumentar a produtividade em culturas variadas. Ela proporciona grande economia de água, fertilizantes, mão-de-obra e energia.

Por que cana de açúcar não dá mais certo?

De acordo com o presidente da Associação dos Fornecedores de Cana de Pernambuco (AFCP), Alexandre de Andrade, a implantação de sistemas de irrigação mais eficientes poderia ser uma saída não apenas para as plantações de cana em Pernambuco, mas em todo o Nordeste. “Nosso grande gargalo é a topografia e a má distribuição de chuvas, sem falar na seca que sempre vem. Temos que encontrar máquinas adequadas à nossa região e há vários protótipos em pesquisa nas unidades industriais. Temos um dos menores custos de produção do mundo. O problema é que estamos competindo dentro do mesmo país, com a região do Centro-sul, que tem o custo de produção ainda menor. Se houver irrigação nos canaviais do Nordeste, teremos uma produtividade maior que eles”, afirmou.

Ainda de acordo com o presidente, o álcool automotivo produzido através da cana-de-açúcar tem um grande potencial, tanto mercadológico quanto ambiental. Entretanto, ele se queixa da falta de apoio governamental para os produtores. “Vejo grande futuro para o álcool por ser um combustível renovável e ecologicamente correto, principalmente no tipo anidro, que é misturado à gasolina. Já a política do governo federal para com o setor é desastrosa. O governo eliminou vários tributos da gasolina, além de importar gasolina mais cara e vender mais barata no mercado interno, causando um grande prejuízo aos cofres da Petrobras,  impedindo que o etanol hidratado tenha preços competitivos com o combustível fóssil não renovável. O governo estadual  também não desempenha o papel que deveria, diminuindo a alíquota de ICMS, como já acontece em São Paulo em Minas Gerais”, declarou.

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