Artigo

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Educação Infantil e sustentabilidade empresarial

Alex Sandro Gomes
Professor do Centro de Informática da UFPE
asg@cin.ufpe.pe

A Educação Infantil parece um nível de ensino muito distante do mundo do trabalho e, portanto, com pouca ou nenhuma correlação entre sua efetividade e a empregabilidade. No entanto, há muito mais relações entre a educação que uma criança recebe em sua primeira infância e sua desenvoltura na adolescência, com vistas ao seu ingresso no mundo do trabalho, do que possamos imaginar.

De uma forma aparentemente mais objetiva, os olhares das políticas públicas e dos programas sociais de qualificação para o trabalho parecem quase que totalmente voltados ao ensino médio. Não sem razão. Surpreendo-me sempre com o desconhecimento do fato de que apenas 12 % dos egressos do 9º ano do ensino fundamental no Brasil são capazes de obter uma nota 6,0 em prova de Matemática, conforme o sítio QEdu.org.br. Taxas similares ou inferiores são observadas, infelizmente, no ensino fundamental, quanto as habilidades em Matemática e Linguagens no Brasil e nas escolas estaduais. Esse resultado é sutilmente correlacionado com o investimento per capita do Brasil: o país que menos investe na educação primária e secundária, segundo o relatório “Education at a Glance” de 2013, da OCED.

Se investimos pouco nesses dois níveis do ensino, os investimentos ainda são menores na educação infantil, fase na qual ocorre o processo de alfabetização. Entretanto, é neste nível que o retorno do investimento é o mais alto: uma relação inversa do que ocorre no nível médio. Ou seja, para cada Real investido na educação infantil, fundamental e médio, o retorno em termos de aprendizagem será maior no primeiro nível. Ainda é necessário um investimento relativamente muito alto no ensino médio, para ensinar neste o que não foi aprendido na educação infantil, tais como as habilidades básicas da leitura e escrita. Portanto, seria sensato que o investimento público e os cuidados com a alfabetização na educação infantil fossem extremos e assim sucessivamente até o final do ensino médio. Mas isso não ocorre.

As políticas públicas para a primeira infância são ainda profundamente desiguais entre os Estados. A obrigatoriedade da oferta e a universalização da educação infantil, da responsabilidade dos municípios, ainda ocorrerão em 2016. Essa meta representa um enorme desafio para os prefeitos em mandato. Diante desse cenário, o debate sobre a qualidade ou a melhoria da qualidade da educação é complexo de ser conduzido amplamente pela sociedade. Para o dirigente de empresas que entende o conceito de sustentabilidade, o investimento público na primeira infância deveria ser entendido como estratégico para a continuidade de seus negócios. De fato, são as empresas que estão de alguma forma pagando elevados valores para suplantar a ineficiência dos sistemas educacionais, e de seu impacto na baixa eficiência do trabalho. Essas empresas tendem a investir em programas sociais voltados preferencialmente para a (re)qualificação de jovens, dada à objetiva correlação.

O que ocorreria se esses valores fossem investidos na educação infantil? Uma incrível mudança de paradigma e um exercício de gestão e planejamento de longo prazo. Se prefeitos são apoiados por empresas e a meta da universalização da educação infantil ocorrer com qualidade em 2016, poderemos sonhar com um egresso do ensino médio que possua melhores habilidades matemáticas e linguísticas que as observadas atualmente. Afinal, em se tratando de Educação, todo investimento precisa ser de longo prazo. ICON-01