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(NOVO)Post_Revista Mercado Aberto-23

O poder criativo da linguagem: diga-me como falas e eu te direi quem és!

Wanda Maria Braga Cardoso
Profª Mestre em Linguística e integrante do NUPEP-UFPE
wandabc@hotmail.com

No ato da fala, tem-se a ilusão de que comunicamos só um conteúdo intencional, mas há muitas outras informações transmitidas nesse processo interativo. E, nesse jogo interacional, vale ressaltar que não se diz apenas aquilo que enunciamos, mas evidenciamos aquilo que dominamos em termos de conhecimento e competência linguística, como é o caso dos graves entraves da língua de quem fala “pobrema” ou “a nível de”, apela para o gerundismo (“vou estar providenciando”), nas concordâncias dos pronomes oblíquos (“qualquer coisa que passem para mim fazer”) ou tropeça na concordância do verbo “haver” (“houveram reuniões em que nada se decidiu”).

Além disso, há uma relação intrínseca de uma parte do que dizemos de nós mesmos ao enunciarmos algo, pois isso revela a nossa perspectiva de observação do mundo. Parafraseando o saudoso Paulo Freire, cada indivíduo faz a sua leitura de mundo e essa leitura de mundo precede ao uso da palavra. Dessa forma, antes da enunciação, já existe a intenção permeada de valores ideológicos, como, a título de ilustração, quem muito utiliza expressões como “comportamento proativo”, por exemplo, sinaliza que compartilha o universo de referência dos treinamentos empresariais e expõe as suas peculiaridades sobre quem é. Isso pode acontecer de forma deliberada, consciente. Já outras vezes em que nos expressamos, entretanto, emitimos sinais involuntários de nossa formação e domínio do idioma. Caso estejamos desprovidos de intenção retórica, quando falamos, revelamos muito ao proferir qualquer coisa, normalmente somando significados no sentido literal.

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Assim, o problema fica evidente quando a enunciação é marcada pelos crassos vícios de linguagem empregados à exaustão em um dado ambiente e por incorreções gramaticais que colocam em xeque a boa imagem, construída ou apenas desejada, do falante.

É o que demonstra recente pesquisa acerca do bom uso da língua e a ascensão profissional pelo acervo de vocábulos que o sujeito possui. Nas grandes corporações, é comum nos testes de admissão, concederem à competência linguística dos candidatos, muitas vezes, o mesmo status dado à aptidão para trabalhar em grupo ou ao conhecimento específico da área. É patente o estabelecimento de correlações entre a dimensão do vocabulário e habilidade de comunicação, de um lado, e ascensão profissional e ganhos monetários, de outro.

Então, fique atento, pois dizer é gerar uma imagem social de si mesmo. O sentido é construído pela seleção e combinação de palavras. E, ao selecionar as palavras, o falante dá mostras do seu universo de referência, do lugar social de onde procede, suas preferências ideológicas e até de seu gosto estético. ICON-01