Artigo

(NOVO)Post_Revista Mercado Aberto-23

Fatos do cotidiano

Josianne Cestari
Artista Plástica pela UFRGS e Especialista em Cultura Americana pela Universidade Luterana do Brasil
jocestari@gmail.com

Outro dia, no supermercado:

“- Mãe, eu quero um chocolate!”

“- Agora não, filho, que a gente já vai lanchar…” disse a mãe distraída olhando as prateleiras do supermercado.

“- Mãe me dá um chocolateeeeee!”

“-Espera filho, que eu preciso terminar as compras”. Ela continua olhando para a prateleira.

“Ô manheeeee, me dáááá…” A mãe pega um chocolate e joga no carrinho onde está o garoto. Sem tirar os olhos da prateleira.
Ergui as sobrancelhas, balancei a cabeça e segui com minhas compras.

“Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus!” Com essa frase, Jesus Cristo respondeu não apenas aos herodianos uma questão sobre impostos, mas estabeleceu uma questão de ordem, de justiça e competência.

Muitos conflitos acontecem (e outros tantos são nutridos) porque este princípio é frequentemente ignorado.
Dar a cada um o que é seu (Suum cuique) assegura a ordem dos relacionamentos, dos objetivos, das empresas, da justiça, da família e da vida.

Mas sobre tudo o que recebemos, exercemos responsabilidade: é a questão de a pessoa certa estar fazendo a coisa certa no lugar e momento certos e ainda, pelas razões certas. Fica fácil então entender porque há tanto conflito no nosso dia- a-dia. Cada vez mais as coisas estão acontecendo fora desse princípio. A desordem corrompe e favorece a destruição e a ineficácia. A ordem é um corpo formado por prioridades claras, tempo certo, respeito a valores e hierarquia, sendo que esta última é um ponto essencial à ordem. Até em nosso corpo existe uma hierarquia. Nossas decisões, atos e desejos são movidos por hierarquias. É mesmo difícil ajustar-se a isso quando os valores não estão claros.

Uma das matérias mais complicadas no estudo de direito é a que trata das competências: um emaranhado onde pode ser difícil estabelecer com clareza muitas vezes quem pode julgar o quê.

Uma das coisas mais comuns nas famílias é ter conflitos derivados da má definição de papéis, gerando frustrações e cobranças sobre quem deve fazer o quê, onde e quando.

Um dos maiores sabotadores das corporações e instituições é a distorção de competência e que compromete diretamente o valor de liderança e responsabilidade, sobre quem sabe e pode fazer o quê (como e quando).

Um dos nossos maiores inimigos pessoais é o erro de julgamento na hora de definir quem é “César”, no final das contas.

O mundo está tomado por certo frenesi em que a disputa pelas competências atropela os melhores valores humanos. E a pessoa errada acaba fazendo o que é errado, no lugar e momento errados, só que todo mundo acha certo porque afinal não sabem quem é “César”. É um distúrbio de lucidez. Quando a identidade de “César” não está clara ou é erroneamente definida, todo mundo perde, até quem acha que está ganhando, como o garotinho do supermercado.

Suum cuique: a cada um o que é seu, nem mais, nem menos. Com cada macaco no seu galho os galhos da árvore não se quebram. E ela continua oferecendo sombra e abrigo para todos. O “César” é a árvore. É sempre a árvore que rege o mundo, não os macacos. ICON-01