Artigo - Entrevista

Germano_01

“Sou artista nos negócios e ator nos palcos”

Empresário de sucesso e ator consagrado, Germano Haiut fala de vida dupla e como concilia negócios e paixão.

“Artista nos negócios e ator nos palcos”, é assim que Germano Haiut se auto define. Com 76 anos de idade, o empresário da moda masculina, vez ou outra deixa o escritório em meio a notas fiscais e produtos, para encarar sua verdadeira paixão: atuar. Nascido na Rua Velha, centro do Recife, de origem judaica, Haiut, desde cedo, vivenciou vários personagens: o de filho, chefe da família – devido a morte precoce do seu pai, vendedor de roupas e comprador. Com esse estilo de vida, mesmo sem perceber, já estava tecendo o caminho da vida nos palcos.

Com mais de 40 anos de experiência como empresário, Germano coordena aproximadamente dez empreendimentos no ramo de moda, com lojas como Triton, VR e Spelunka espalhadas por todo Brasil. Foi responsável por trazer pela primeira vez uma franquia ao Estado e também de exportá-la. Com espírito empreendedor, Haiut acreditou no modelo inédito, na década de 80, dos shopping centers. Mesmo o país vivenciando uma crise financeira com picos de inflação e estagnação econômica, o empresário foi um dos primeiros lojistas a fazer parte do desafio, inserindo a marca de vestuário Spelunka no novo modelo de comércio.

Precoce como era na vida, no teatro não foi diferente. Logo na infância, Haiut participou de grupos de teatro amador e até mesmo de encenações Idish (teatro judaico). Quando protagonizou seu primeiro filme, denominado O Ano, o sucesso foi avassalador. No entanto, essa mudança repentina não o assustou, apenas mudou sua rotina para participar de entrevistas, festivais e minisséries, sendo a mais recente Amores Roubados, exibida este ano pela Rede Globo, contracenando com feras da dramaturgia, como Cauã Reymond e Isis Valverde.

Haiut é um homem de vida simples. Casado e pai de quatro filhos, ele preza muito a família, sua origem e seus costumes. A revista Mercado Aberto entrevistou o empresário-ator para saber mais sobre essa vida dupla, bem como seus anseios e planos para o futuro, porque vivacidade é o que não lhe falta.

“Para ser comerciante neste país tem que ser artista.”

Para ser comerciante neste país, precisa de muito jogo de cintura. Terminamos tendo que interpretar diferentes papeis para as diferentes pessoas que nos rodeiam. Consumidores, fornecedores, empresários, empregados. Cada um tem sua particularidade que merece a atenção devida. Acredito que tento ser normal nessa minha vida dupla no sentido de que o lado empresário compensa o ator, e vice e versa. Estou há 53 anos no varejo, embora frustrado. As coisas ficam cada dia mais difíceis. Existem muitas contradições e leis que são impostas todos os dias que nem os próprios contadores conseguem acompanhar. Como ator, digo o que quero e o que penso, e da forma que desejo. Com certeza um terapeuta, psicólogo ou psiquiatra me diriam que em cena eu termino exteriorizando muita coisa que não posso devido às convenções do dia a dia.

“Sou realista. Não faço o que sei que está fora da minha realidade.”

Atuar é uma paixão e estou sempre aberto para novos desafios. Mas sou realista. Mesmo meus filhos me ajudando, estando sempre à frente e comandando as empresas da família, não faço trabalhos longos, que exijam muito de meu tempo e um afastamento grande dos negócios. Ainda assim, antes de sair e viajar por alguns meses, como fiz recentemente na minissérie Amores Roubados, tento organizar o máximo antes e sempre que haja uma folga nas gravações, ou nos ensaios – se for teatro, volto para assumir meu papel dentro da empresa.

“Meu ofício é ser comerciante.”

Não dá nem para comparar a estabilidade que tenho como empresário com a que teria vivendo com os cachês que receberia no teatro ou em novelas. Desde menino sou comerciante, é o que eu sei ser. Nunca se valorizou e não se valoriza o teatro da forma como deveria. Lembro-me que, principalmente no início, nós praticamente pagávamos para poder atuar. Tínhamos que providenciar figurinos e arcar com viagens. Com o tempo e a experiência a condição foi melhorando, ao menos para mim. Mas essa ainda é a realidade de quem começa agora, de quem tenta sobreviver apenas com a renda de ator.

“Ser ator foi um acidente de trabalho.”

Aos treze anos, sem meu pai, tive que sustentar a casa. Nessa idade eu comecei vendendo móveis, em seguida passei a vender roupas de porta em porta. Dentre minhas andanças pelo Recife, passava todos os dias na frente do Teatro do Estudante Israelita de Pernambuco. Filho de imigrantes judeus originários da Bessarábia, atual Moldávia, um dia resolvi entrar e me inscrever. Daí tudo começou. Iniciei participando de peças de importantes autores do teatro mundial  como William Shakespeare, Luigi Pirandello, Ariano Suassuna e muitos outros. Também participei de movimentos culturais dentro da comunidade judaica, como o Hashomer Hatzair (movimento juvenil sionista ligado ao partido de esquerda em Israel).

“O frio na barriga é o que me movimenta.”

A emoção de estar no palco é inenarrável. Mas é isso que me movimenta. Esse frio na barriga, esse medo de que tudo saia uma porcaria. O último ensaio geral mesmo, sempre sai péssimo; mas isso é um excelente sinal. Sinto-me o dono do meu pedaço quando estou em cena.

“Posso afirmar, sem falsa modéstia, que o que fiz até agora considero que foi bom.”

Sei que não sou uma estrela e o melhor empresário ou o melhor ator, mas tudo que fiz foi com cuidado e muita dedicação. Posso afirmar, sem falsa modéstia, que o que fiz até agora considero bom. Aprendi que para tudo é preciso muita disciplina. Desde pequeno, quando tinha obrigação de colocar dinheiro em casa, por conta da morte do meu pai, tive que aprender a dividir muito bem o tempo. Tanto para reinventar a forma de vender, como para atender a todos os meus clientes e ainda participar dos grupos de teatro.

“Seria muito difícil encarar um papel feito o de cauã, na minissérie amores roubados.”

Nunca digo quais as últimas coisas que quero fazer, são sempre as penúltimas, para dar ideia de continuidade. Não sei daqui pra frente quais serão as últimas. Então meus penúltimos planos para o futuro são: no Germano empresário, é dar continuidade à loja, e no Germano ator, é embarcar em novas oportunidades de atuação, dentro das minhas possibilidades. Sou muito pé no chão, e sei que fora do eixo Rio-São Paulo as oportunidades não são grandes. O fator idade também dificulta, tenho 76 anos, e fico pensando que seria muito difícil encarar um papel feito o de Cauã nesta última minissérie, Amores Roubados.

“Quem fez sucesso nos negócios há anos, provavelmente não conseguiria agora.”

O jovem empreendedor é o futuro do país. Hoje a informação corre muito mais rápido e os incentivos e os impostos que o país impõe para os empresários são desanimadores. A realidade que existia, da necessidade, de um mercado inexplorado e de pessoas que começavam, pela primeira vez na história do país, a ganhar um dinheiro e ter o poder de escolha, poder de consumo, não existe mais. Hoje a concorrência é imensa e para crescer tem que ser diferente. Quem fez sucesso nos negócios há anos, provavelmente não conseguiria agora. O futuro são os jovens empreendedores.